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10 perguntas a se fazer antes de desistir da carreira artística

Música, teatro, cinema, fotografia, literatura, designer, programador etc. São inúmeras as carreiras que tem um cunho artístico intrínseco. São profissões em geral autônomas, com muitos concorrentes e pouco espaço no mercado, ou seja, pede uma postura empreendedora e criativa! Muitos talentos duram nesses tipos de atividades um certo tempo, tendo que, em um determinado momento, decidir entre investir no sonho ou pleitear algo mais estável para quem sabe, levar aquilo que era o seu objetivo de vida como uma atividade a ser exercida na hora de lazer, o que também não tem nada de errado.

Muitos fatores que determinam o sucesso na carreira artística está fora do controle do artista, entretanto, por outro lado, muita coisa está sob nosso controle e pode ser melhorado, antes de mudarmos de área e deixarmos nosso tão almejado sonho em segundo plano.

É importante salientar, que considero viver da arte o fato de receber por ela como um trabalho qualquer, investir, pagar suas contas, construir sua vida, etc, e não virar um milionário, estar nas grandes mídias, viver uma vida glamorosa, etc.

Em 2014 foi a minha segunda tentativa de viver da minha arte, o rap. O meu meio para tal foi através da venda de discos mão a mão, os workshops sobre o assunto e show e atualmente, a bolsa Fapesp de pesquisador de rap e cultura negra na educação municipal em São Paulo. Tudo que eu faço atualmente é relacionado a minha arte, confesso que seria impossível viver apenas dos shows no momento, por outro lado, descobri outras paixões dentro do rap como por exemplo, ensinar.

Não vejo problemas em desistir de algo e começar outro, faz parte da vida, mas no caso da trajetória de cunho artístico, se o motivo para a desistência for as pressões externas, bolei aqui dez perguntas de coisas que você pode fazer antes de mudar o rumo do leme:

Vamos lá:

Você já pensou em produzir algo novo para a cena da sua cidade? Algo que não existe?

Muitas pessoas reclamam que sua arte não tem cena em sua cidade, nesse caso há duas alternativas que eu vejo: ou você muda de cidade ou você começa a duras penas, construir a cena no seu município, lembrando que uma coisa não impede a outra, fora que o valor agregado de se construir uma cena é inestimável. Num mundo onde criatividade é fundamental, ser o primeiro a fazer algo é melhor do que ser o melhor em algo, foram esses os motivos que me levaram junto como Robson Peqnoh a dar início ao evento Batalha Central, que 8 anos depois, conta com muitas pessoas envolvidas na sua realização.

Você já apresentou todos os lados positivos da sua arte para que sua família te entenda e assim, possa te apoiar? Ou negociar?
Muitas vezes a sua família não vai entender o que você quer fazer, ou simplesmente não acredita que possa funcionar para você, não se irrite, eles querem o melhor para você e quando o assunto é de pai e mãe para filho e filha, segurança é um alarme que não para de piscar na mente dos seus progenitores. Mostre para eles o que você tá fazendo e como você tem se programado para trabalhar em prol da sua arte, mostre também o seu comprometimento com o plano “B”, pode ser o seu trabalho ou estudo, na pior das hipóteses, negocie um tempo semanal que você vai se dedicar ao seu sonho sem interferências externas, se você já for casado(a), a concessão deve ser feita com o cônjuge. Caso o seu projeto esteja bem formatado, convide eles para participar de alguma forma, por exemplo: fotografar ou filmar seus eventos, ficar responsável pela comunicação, ou simplesmente peça para que lhe enviem links ou matérias sobre sua área quando casualmente se depararem com elas.

Já escreveu um projeto ou edital ou já fez uma proposta para instituições culturais?

Os editais são espécies de concursos públicos que “compram” projetos de vários níveis no âmbito cultural, entre outros. Digite “edital cultural, edital musical, edital fotografia, edital cinema, etc” no Google e veja quais estão ativos, estude-os e submeta o seu projeto conforme as regras nele disposta, você pode ser financiado para colocar o seu projeto na rua. Ganhei o meu primeiro edital após 7 anos escrevendo, quanto mais você escreve, mais material você gera para o próximo.

Já pensou em produzir seu próprio show/evento?

Quando você produz o seu próprio show, acaba fomentando a cena local e mobilizando muita gente em prol do seu evento. Você pode fazer isso com dinheiro da venda do seu próprio trabalho, dinheiro de edital ou sem dinheiro se você tiver boas parcerias. Quando o Peqnoh lançou o primeiro EP, ele mesmo produziu o show de lançamento com direito a versão física do trabalho e ter o seu show aberto pelo rapper carioca Marechal, que pelo fato de já ter um certo nome, trouxe pessoas fora do nosso radar para conhecer o trabalho do Peqnoh, alguma delas viraram fãs e até parceiros, o evento foi no início de 2010 e rendeu parcerias que hoje, final de 2017, continuam crescendo e contribuindo para que todos juntos, deem passos ainda maiores.

Já se informou como profissionalizar sua atividade perante a lei?

Em 2014 percebi que nossas ações teriam limites se não tivéssemos um CNPJ. Acho que ele não é necessário no início de tudo, mas após algumas ações, se você não tiver um, seu crescimento estará limitado. Muitos contratos e editais só são justificados mediante pessoa jurídica, como é o caso do Sesi por exemplo.

Quando você produz/participa de um evento ou lança algo novo, manda e-mail/liga para os veículos de comunicação que você conhece?

É fundamental para o crescimento da sua arte que você escreva ou tenha alguém para escrever sua “sugestão de pauta”, uma espécie de matéria sobre o que você está fazendo (seu evento, livro novo, etc).  Com a sugestão de pauta pronta, o próximo passo é entrar em contato com os veículos de comunicação da sua área, se nunca tiver feito isso, comece pelos pequenos blogs e assim que eles produzirem algo sobre o seu trabalho, faça uma cópia e envie para um veículo um pouco maior e assim sucessivamente. Guarde tudo que for produzido sobre o seu trabalho, seja escrito, em vídeo ou impresso, pois este material prova que a sua carreira existe no mundo real e não apenas nos seus perfis das redes sociais, este material gerado é de muita utilidade na hora de escrever o seu projeto para um edital em questão ou até mesmo conseguir parcerias.

Seria capaz de produzir alguma etapa da sua obra sozinho se necessário? Mix, master, filmagem, edição, prensagem, revelação, autoração, siregrafia, etc.

É importante você conhecer o processo ou parte dele e entender como a sua arte se transforma em um produto final, seja o produto uma prestação de serviço (show, performance, palestra) ou um produto físico (disco, livro, quadro, dvd), pois conhecendo o processo você pode pensar melhor a cerca dos seus parceiros de trabalho, bem como definir o valor de mercado da sua arte.

Já criou e executou estratégias para vender seu show e seus produtos?

Criar e executar estratégias de vendas do seu produto, além da contribuição financeira, te ajuda a entender o funcionamento do mercado e consequentemente, a investir no produto certo. Sei que arte e vendas não combina, mas vender é uma arte necessária para quem pleiteia viver de arte, caso contrário, o melhor é vender o tempo de trabalho no mercado formal mesmo. Esta prática é importante para trazer clareza e decisão na hora de executar o trabalho, por exemplo: no nosso universo da música, constatamos que camiseta relacionadas a música vende mais do que a própria música, tempos depois eu vi uma matéria que dizia justamente isso: “acessórios de moda são os itens mais vendidos no nicho da música”. Não tem jeito, você pode imaginar a temperatura da água, mas para saber tem que colocar o pé!

Quando tem algum curso/workshop/palestra gratuita que de alguma forma, pode somar no seu trabalho (on ou off line) você participa?

Infelizmente, ego costuma crescer mais do que a própria arte no universo artístico, quando ele cresce demais, o artista para de achar que pode aprender com terceiros, se fecha no seu mundinho e o resto é história. Eu pessoalmente vejo como “obrigação” estudar o seu nicho a partir do conhecimento de terceiros, além de todos poderem aprender com todos, é uma oportunidade de fazer contatos, parcerias e adquirir novo aprendizado. É importante lembrar: ego e aprendizado não andam juntos. Quanto mais aprendemos mais vemos que nada sabemos, quando achamos que sabemos demais, não aprendemos mais coisas novas. Embora educação seja algo caro, há muitas cursos gratuitos, presenciais e on-line, fora o Google e Youtube que são ótimas ferramentas de pesquisa. A escola tem fim, o aprendizado não.

Você tem investido no seu desenvolvimento pessoal em áreas fora da sua?

Uma das coisas que acredito ser capaz de tornar um artista diferenciado é aprender e viver experiências que nada tem a ver com sua arte. Vejo pessoas que nunca saem da sua bolha artística, queira ou não, é um tipo de zona de conforto e na zona de conforto, nada cresce, a não ser o comodismo e a preguiça. Quando aprendemos algo de fora da nossa área, somos capazes de ter uma visão mais ampla, crítica e mais criativa sobre os problemas do nosso nicho, além de podermos ser os primeiros a executar algo em nossa área de uma maneira ainda não feita.


Espero que essas perguntas tragam alguma luz para o seu projeto artístico, se quiser conhecer a parte dois “5 coisas que eu devo desencanar em prol do meu projeto artístico: será que eu faço alguma destas” deixe o seu e-mail nos comentários.

Abraço,

Daniel Garnet

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